A declaração foi dada em resposta a uma pergunta da juíza Elizabeth Louro sobre sua opinião atual a respeito da autoria do crime. “Creio que foi Jairo”, respondeu. A acusação tem sido negada pela defesa de Jairinho, que tem contestado os depoimentos durante o julgamento.
É a primeira vez que Monique faz uma afirmação desse tipo em juízo. Durante a fase de instrução do processo, ela havia declarado que apenas Deus saberia o que aconteceu naquela madrugada de março de 2021.
O julgamento chegou ao sétimo dia após a oitiva de 22 testemunhas e especialistas. Cinco testemunhas inicialmente previstas foram dispensadas pelas partes.
A expectativa é que os interrogatórios sejam concluídos nesta terça. Em seguida, o Ministério Público e as defesas apresentarão suas alegações finais aos jurados, etapa que pode se estender até quarta-feira (3).
Ao final dos debates, os sete jurados decidirão se Jairinho e Monique devem ser condenados ou absolvidos das acusações relacionadas à morte de Henry Borel.
Ao longo de cerca de seis horas de interrogatório, iniciado às 10h30 e encerrado às 16h35, Monique apresentou aos jurados um relato centrado em dois eixos: a alegação de que viveu um relacionamento abusivo com Jairinho e a afirmação de que não tinha conhecimento de agressões contra o filho.
Segundo ela, o ex-vereador exercia controle sobre sua rotina, monitorava seus deslocamentos e impunha restrições ao seu comportamento. Monique afirmou que era proibida de frequentar aulas ministradas por homens e de usar determinadas roupas na academia. Ainda na academia, uma pessoa a monitorava e enviava fotos dela para ele.
Ela também relatou que Jairinho mantinha acesso à sua localização em tempo real por intermédio de um aplicativo no celular e que chegou a conseguir para ela uma vaga de trabalho no Tribunal de Contas do Município porque, na escola onde trabalhava anteriormente, o sinal de celular era ruim e ele não conseguia monitorá-la.
Apesar disso, negou ter obtido vantagens financeiras relevantes com a mudança de emprego.
Monique também rebateu a tese de que teria permanecido ao lado de Jairinho por interesse econômico. “Nunca tive vida de luxo, nunca troquei meu carro”, disse.
Ao descrever o relacionamento, Monique afirmou que foi agredida fisicamente por Jairinho em novembro de 2020, quando teria acordado sendo enforcada durante uma crise de ciúmes após ver o celular dela.
“Ele ficou com ciúmes porque eu chamei meu ex-marido de Le, e ele respondeu me chamando de Nique”, contou. Segundo ela, Jairinho atribuiu o episódio ao consumo de álcool e prometeu que não voltaria a acontecer.
REMÉDIOS
A ex-diretora escolar também disse que Jairo, por ser médico, mandava que ela ingerisse remédios macerados no vinho para “evitar que ela conversasse com outro homem enquanto ele dormia”.
No dia da morte de Henry, ele deu remédios para ela, a chamou para um quarto para “namorar”, ocasião em que dormiu rapidamente. “Desconfio que os remédios tenham me feito dormir rápido”, contou.
Ainda segundo Monique, na mesma madrugada, Jairinho a acordou dizendo que o menino estava caído no chão do quarto. Ao entrar no quarto, ela viu que ele estava sem o edredom e com “os olhos abertos, olhando para nada”.
No hospital, ela disse que viu quando um enfermeiro cortou o pijama de Henry e não notou nenhuma marca no corpo do menino. “Nunca achei que tivesse sido uma morte por assassinato, porque não havia nenhuma marca no corpo do meu filho”, afirmou. Segundo Monique, ela acreditava na tese de acidente doméstico.
Conforme a versão apresentada por Monique, ela não desconfiou que Jairinho pudesse ter feito algo e entrou em luto profundo, chegando a arrancar o megahair que usava, deixando feridas e buracos no couro cabeludo. Por isso, antes de ir ao enterro, foi a um salão de beleza arrumar o cabelo.
DESCONFIANÇA
Monique também disse que, quando começou a desconfiar de Jairinho após a divulgação de reportagens, antes de ser presa, chegou a dar um tapa nele e dizer: “Você matou o meu filho”.
Nesse momento, segundo ela, Jairinho pegou uma Bíblia e, com a mão sobre o livro, disse: “Eu juro pelos meus três filhos mortos que nunca encostei um dedo no seu filho”.
Por isso, afirmou Monique, além da orientação do advogado que defendia ambos, ela permaneceu ao lado dele.
Monique contou que os dois passaram a morar juntos na segunda quinzena de janeiro de 2021 -foram três meses de namoro e 52 dias em que Henry viveu sob o mesmo teto com o casal. Segundo a mãe de Henry, o único episódio agressivo que presenciou ocorreu enquanto cozinhava e Jairinho estava na sala com a criança.
“Henry entrou na cozinha e me disse que levou uma banda e uma moca do Jairinho. Fui até a sala e perguntei o que havia acontecido. Jairo disse que segurou os braços de Henry, que não chegou a derrubá-lo no chão e que o chamou de ‘viadinho'”, afirmou. Segundo Monique, ela repreendeu o então companheiro e, a partir desse episódio, ela não quis mais deixar o filho sozinho com ele.
Monique também relembrou o episódio de 12 de fevereiro de 2021, quando recebeu mensagens da babá relatando que Jairinho havia levado Henry para um quarto da residência. Segundo ela, a babá não disse em nenhum momento que houve tortura ou agressão no quarto. Para ela, nos cinco minutos que Jairo passou com a criança no quarto, ele somente teria dito algo que deixou Henry triste.
Ela leu aos jurados todo o diálgo que teve com a babá nas mensagens trocadas. “Eu perguntava para ela o tempo todo o que Jairo havia dito para o Henry. Eu não sabia da dimensão. Hoje, pelo relato das ex-namoradas e pelas provas, entendo que ele agrediu o meu filho”, disse.
COMPORTAMENTO
Ao longo do depoimento, procurou demonstrar que buscou ajuda para compreender mudanças de comportamento apresentadas pelo filho nas semanas anteriores à morte.
Em um momento de emoção, leu aos jurados um bilhete enviado à professora de Henry pedindo que observasse qualquer alteração no comportamento do menino. Segundo Monique, a resposta recebida foi de que a criança estava bem adaptada à escola.
A ré também negou ter orientado a babá a apagar mensagens que relatavam possíveis agressões. “Ela é uma grande mentirosa”, declarou.
Segundo Monique, as mensagens recebidas naquele período foram preservadas e compartilhadas com outras pessoas, incluindo uma psicóloga e uma funcionária da residência.
Ao responder perguntas dos jurados, a mãe de Henry voltou a negar que tivesse conhecimento das agressões apontadas pela acusação. “Uma mãe não mata seu filho. Se eu soubesse, eu estaria respondendo por homicídio ou estaria enterrada ao lado do meu filho”, disse.
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