A organização pretende receber denúncias, investigar casos e mover ações judiciais contra empresas como X, Meta — dona do Facebook, Instagram e WhatsApp — e Google, com o objetivo de responsabilizar as plataformas pelos danos causados aos usuários.
“Eu acho que a gente tem uma missão muito importante de romper com o sentimento de apatia, de impotência que as pessoas têm em relação às big techs”, afirmou Daniela da Silva em entrevista à agência Lusa.
A diretora-executiva da CTRL+Z acrescentou que “são as empresas que têm de ter medo das pessoas, e não as pessoas terem medo das empresas”, defendendo maior pressão pública e jurídica sobre o setor de tecnologia.
O nome da organização faz referência ao atalho de teclado usado para desfazer ações no computador e, segundo o site oficial da CTRL+Z, a iniciativa pretende “enfrentar o modelo de operação” das grandes empresas de tecnologia.
Entre os projetos lançados está o “Vaza Big Tech”, que permite a funcionários dessas empresas compartilharem informações e denúncias de forma anônima, e o “Arquivo de Danos Digitais”, destinado a reunir relatos de usuários afetados por plataformas digitais.
A organização atua em parceria com escritórios de advocacia no Brasil para analisar denúncias e avaliar possíveis ações judiciais com apoio jurídico gratuito, utilizando mecanismos previstos na legislação brasileira de defesa do consumidor.
Segundo Daniela da Silva, usuários com contas suspensas, perfis falsos, invasões hacker ou conteúdos nocivos não removidos pelas plataformas poderão recorrer à organização em busca de orientação e apoio jurídico gratuitos.
A ex-diretora de Políticas Públicas do WhatsApp deixou a Meta em janeiro de 2025, após cerca de um ano na empresa, alegando discordâncias com mudanças anunciadas por Mark Zuckerberg na condução da companhia.
As alterações incluíram, segundo ela, o fim de programas de checagem de fatos, maior circulação de conteúdos políticos e mudanças na moderação de temas relacionados à imigração e gênero.
Essas ações da Meta, segundo Daniela, fizeram com que ela percebesse que não conseguiria mais desenvolver um trabalho de “política pública racional” e “baseado em diálogo” que tornasse, na sua visão, “as plataformas melhores”.
“Eu senti que seria importante para mim atuar em uma posição diferente, que, se eu quisesse ver plataformas digitais melhores, teria de fazer isso fora da Meta, atuando por fora e não por dentro”, afirmou.
Antes da Meta, Daniela trabalhou por quase uma década na Open Society Foundations, organização filantrópica global.
Segundo ela, após um período de “um ano de gestação”, ao lado de amigos e em diálogo com representantes da sociedade civil que já atuavam no enfrentamento às big techs, a CTRL+Z foi fundada em abril deste ano.
A diretora-executiva defendeu que a sociedade civil pode atuar como um “freio” ao poder econômico e político das big techs, que ela descreveu como as empresas mais poderosas da história do capitalismo contemporâneo.
Daniela da Silva também classificou como “tecnofascismo” a aproximação das plataformas digitais com movimentos de extrema direita autoritária e alertou para o papel das tecnologias na disseminação de discursos extremistas.
Segundo ela, o Brasil se tornou um polo geopolítico relevante no debate internacional sobre governança digital e regulação das plataformas, devido ao histórico do país no enfrentamento às grandes empresas de tecnologia.
“São as empresas mais poderosas do mundo, um nível de concentração de capital nunca visto antes na história do capitalismo, e a gente precisa que existam mecanismos de contenção para todo esse poder”, ressaltou.
Daniela também afirmou que as big techs criaram a ilusão de que são inevitáveis e de que seu modelo de negócios é o único sustentável, mas que, pela experiência que teve dentro dessas empresas, sabe que essas são “decisões tomadas por pessoas comuns”.
“A verdade é que, tendo trabalhado por dentro, ficou muito claro para mim que essas decisões são tomadas por pessoas comuns, muitas vezes pouco informadas sobre os países onde suas empresas atuam”, observou.
Segundo ela, essas decisões podem ser diferentes, mas é necessária “muita pressão pública” para que isso aconteça — e é justamente essa pressão que a motiva.
Daniela da Silva, de 40 anos, acrescentou que outra motivação para criar a organização está ligada à filha de nove anos e à preocupação com educação digital, tempo de tela e os conteúdos consumidos por crianças e adolescentes.
“Essas tecnologias são onipresentes, então vão entrar na vida das nossas crianças e adolescentes de alguma forma, e nós, como sociedade, precisamos fazer um pacto para que elas sejam melhores”, afirmou, dizendo-se otimista.
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